Os ponteiros do relógio
corriam para apontar a meia-noite quando a figura rechonchuda do senador
Garibaldi Alves Filho (PMDB do RN) se movimentava lentamente ao caminho da
tribuna do Senado da República. Cabelos brancos, terno cinza, camisa azul,
gravata listrada e óculos armados no rosto de bolacha, o senador que recebeu
mais de 1 milhão de votos em 2010, ostenta naturalmente um arquétipo
desajeitado e nada elegante. O presidente do Senado, Renan Calheiros, ao
convoca-lo como o 43º orador da noite, o sorriu jocosamente como quem encontra
um amigo antigo.
Garibaldi Filho que é
notadamente lento e desajeitado não conseguiu concluir a leitura de seu
discurso, mas enquanto pôde fez divagações sobre sua gestão à frente do
Ministério da Previdência Social, justificando sua permanência no ministério em
virtude de uma missão confiada a um notável agente público. Na verdade o velho
cacique potiguar só se tornou Ministro de Estado em decorrência da relação
puramente fisiológica que seu partido manteve durante 13 anos com os Governos
do PT. O PMDB sempre trocou apoio
parlamentar por pedaços da maquinaria do Estado, onde pudesse espraiar colegas
e aliados. A relação de bons aliados entre o PT e PMDB já nasceu podre e ao longo
dos anos o odor só cresceu. O certo é que com esta aliança só perdeu o Brasil e
o povo brasileiro.
Vale destacar que Garibaldi
Alves que é advogado de formação e um parlamentar medíocre foi indicado para a
Previdência sem absolutamente nenhuma credencial técnica. O seu antecessor, o
ex-ministro Eduardo Gabas é contador de formação e funcionário de carreira do
INSS desde março de 1985, além de ser especialista e pós-graduado na Gestão de
Sistemas de Seguridade Social pela Universidade de Alcalá da Espanha. Garibaldi
nunca foi um estudioso da seguridade social e como governador do Rio Grande do
Norte deixou o legado da venda e privatização da COSERN, então agência estatal
de fornecimento de energia. Garibaldi sempre manteve o estilo taciturno e boa
praça: conservou relações e sempre buscou está ao lado dos projetos políticos
vitoriosos independentemente da cor partidária. Neste sentido, o senador
potiguar é realmente idêntico ao seu partido (o PMDB).
Garibaldi Alves Filho que já
foi prefeito de Natal, governador do Rio Grande do Norte, Ministro da
Previdência Social, deputado estadual e senador-presidente do Senado da
República e tem transito livre com seus pares. A verdade é que Garibaldi Filho
é o autorretrato do Senado da República: parece institucionalmente inofensivo e
bobo, mas não titubeia no momento de engatar a marcha do retrocesso quando isso
significa beneficiar aliados. Garibaldi Filho disse apoiar o “minucioso
parecer” elaborado pelo relator do caso na Comissão Especial do Impeachment,
Antonio Anastasia (PSDB-MG), e declarou voto pelo prosseguimento do processo
por crime de responsabilidade afastando Dilma e abrindo caminho para o governo
ilegítimo de Michel Temer.
No seu discurso Garibaldi
falou sobre o obvio: é preciso uma reforma política. Nesta frase é possível ter
um acordo com o senador. Nós acreditamos que uma reforma política é
importantíssima, especialmente se ela banir parlamentares inertes como o
próprio Garibaldi e modificar a feição – horrorosa – do parlamento brasileiro.
O Senado como uma casa de ex-governadores financiada por grandes empresários em
absolutamente nada contribui para abrir novas perspectivas para o povo
brasileiro. O golpe institucional que Garibaldi apoio só torna a perspectiva do
povo pobre do Brasil ainda mais obscura. A única perspectiva possível com Temer
no poder é escuridão.
(*) Modesto Neto é
historiador, cientista social e dirigente do PSOL-RN.

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